18/05/2017

Causa Arredondada – Entrevista com Nina Valentini

*Matéria originalmente publicada no Jornazen

Estímulo e exemplos nunca faltaram para a paulista Nina Valentini virar uma empreendedora social – vocação que acabou se consolidando na faculdade. Ao longo da infância e da adolescência, ela pôde entrar em contato com pessoas em situação de vulnerabilidade e com a militância na luta antimanicomial, no Hospital Cândido Ferreira, em Campinas, onde o pai foi coordenador por 14 anos. A mãe trabalhou no Instituto Ayrton Senna e exerceu cargos no Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Na graduação em administração pública na Fundação Getúlio Vargas, Nina teve a primeira experiência com captação de recursos. Convidada pelo empresário Ari Weinfeld, idealizador do Instituto Arredondar, ela aceitou o desafio de fomentar a cultura de doação e de engajar o consumidor brasileiro por meio de um sistema de captação de microdoações individuais.

Operando desde 2014, o Movimento Arredondar faz a ponte entre doadores, varejistas e instituições, oferecendo ao consumidor a possibilidade de arredondar o valor da compra em benefício do terceiro setor. No ano passado, a administradora conquistou o Prêmio Empreendedor Social de Futuro, destinado a jovens empreendedores com perfil inovador. Nesta entrevista ao JORNALZEN, Nina Valentini explica como tem contribuído para a aproximação entre organizações sociais e a população em geral.

O que despertou sua vocação para o empreendedorismo social?

Meus pais são bastante engajados, especialmente em temas ligados à área da infância e da luta antimanicomial. Aos 14 anos, fiz uma viagem ao Vale do Jequitinhonha que mudou minha vida, acompanhando um pouco do trabalho realizado pelo CPCD, Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. Ali, descobri a força de um trabalho comunitário que envolvia famílias, crianças, geração de renda e escolas públicas envolto em muita criatividade e engajamento. De certa forma, descobri cedo que o universo das transformações sociais era o que me encantava, mas ainda não sabia como atuar. Fiz alguns trabalhos voluntários, e no momento de decidir a carreira, prestei vestibular para diversas frentes. Acabei optando pela administração pública – e foi durante a faculdade que descobri que a temática de trabalhar para o fortalecimento das organizações da sociedade civil e, principalmente, de aproximar pessoas a causas, ficou evidente como uma escolha de caminho. Acabei mobilizando recursos para diferentes projetos e aprendi a gerenciar parcerias.

Como surgiu a ideia de criar o sistema de microdoações?

A ideia do Arredondar surgiu do presente que o Ari Weinfeld, fundador do movimento, ganhou de uma amiga empreendedora social um livro que tratava de inovações sobre as formas de levantar recursos para o terceiro setor – Financing Future, de Maritta Koch-Weser e Tatiana van Lier. Como doador, Ari adorou, e convidou empresários e empreendedores para atuar com ele. Tive a sorte de ser convidada. Temos uma grande parceria. Aprendi muito com ele nos últimos cinco anos.

Quais os principais desafios enfrentados para viabilizar o movimento?

Nós precisávamos desenvolver um sistema que não incidisse impostos sobre a operação, e que não custasse ao varejista. Precisávamos acompanhar as doações, portanto, tivemos que fazer um sistema de retaguarda que recebesse as informações sobre o total doado por dia, por loja. Precisávamos selecionar e acompanhar as organizações, e viabilizar uma comunicação em loja com baixo custo. Precisávamos treinar as equipes de venda. Enfim, eram muitas frentes, e claro, muito trabalho de criação e inovação. Só foi possível porque tivemos muitos parceiros, que acreditaram em nossa proposta e nos ajudaram a solucionar esses desafios.

Como é possível desenvolver uma cultura de doação no Brasil?

O brasileiro é doador. Segundo a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), ao longo de 2015 77% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação. No entanto, nossa cultura é muito focada em doação de coisas e pouco em doação de recursos, que traz mais autonomia às organizações. No Arredondar, acreditamos que as doações precisam ser mais acessíveis. Nosso trabalho é abrir espaço para que todos sejam doadores. Para nós, o arredondamento é uma porta de entrada para o engajamento, e uma forma transparente de doar, conhecer novas organizações, acompanhar o trabalho delas, e compreender que a força de uma multidão é capaz de mudar o Brasil.

Qual é a importância de empresas investirem em causas sociais?

As empresas têm um papel central no desenvolvimento social do País, não só pelos recursos e pessoas que mobilizam, geração de emprego, mas também pela capacidade de gerarem desenvolvimento social nos locais em que estão inseridas. Investir em causas sociais não é só uma tendência e até obrigação social e para o crescimento do negócio, como também gera engajamento e envolvimento dos colaboradores e clientes, e criando um círculo virtuoso.

Que mensagem gostaria de deixar para os nossos leitores?

Gostaria de convidar todos a conhecerem melhor o Arredondar, as organizações que apoiamos e o impacto que estamos gerando. Temos um canal aberto para receber sugestões, críticas, ideias. Nosso trabalho é mobilizar, junto com uma grande rede de parceiros e colaboradores, milhões de doadores que acreditam e apoiam o trabalho de mais de 20 organizações de impacto que estão transformando a vida de mais de 20 mil pessoas.