12/09/2017

Como transformar centavos em milhões

foto: gabo morales

Enquanto Nina Valentini, 30 anos, nascia, em São Paulo, Ari Weinfeld, 58, já escrevia seu nome nacionalmente como empresário do setor de tecidos. Mas se existe um roteirista máster para essa nossa aventura terrena, ele sabia que dali a 24 anos os dois iriam cruzar caminhos e, nesse encontro de sorte, ajudar a transformar o Brasil. A parceria é o que vai render a ambos uma homenagem no Transformadores deste ano: o Movimento Arredondar, que gerenciam juntos, está mudando a cultura de doação no país. A ideia é, a princípio, bastante simples: ao fazer uma compra e topar arredondar os centavos da conta, você está doando para uma ONG. Mas a simplicidade contida na ideia é apenas aparente porqye para fazer com que esse arredondamento seja legal, rápido e legítimo, Nina e Ari tiveram que mover algumas montanhas contábeis, fiscais, tecnológicas, legislativas e culturais. "Se soubesse que seria tão difícil, eu não teria aberto o Arredondar em 2011", disse Ari quando nos encontramos para esta entrevistas na sede do Arredondar, em Pinheiros, São Paulo.


São, na verdade, múltiplas as dificuldades enfrentadas diariamente para fazer com que o Movimento siga operando, mas chegaremos a elas mais à frente, porque antes vamos falar de coincidências e de como é curioso quando, ao voltar o filme de nossas vidas, somos capazes de enxergar acontecimentos banais como absolutamente fundamentais, e outros, que soavam dramáticos, iluminados pela mesma força que acendeu as estrelas.

Para Ari esse acontecimento banal foi uma conversa com o filho Felipe há quase dez anos. "Felipe chegou em casa do cursinho e do nada disse: 'Pai, você precisa conhecer a Nina, uma menina que estuda comigo. Ela vai mudar o mundo'. E eu respondi: 'Então casa com ela', nós dois rimos e foi isso. Eu não tinha ideia de quem ele estava falando."

Para Nina esse acontecimento foi uma tuberculose, que ela contraiu numa viagem de trabalho na Índia quando fazia administração pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Eu já atuava com projetos sociais e achava que estar na linha de frente era o que eu queria, mas a doença me fez perder 12 quilos, seis meses de faculdade e entender que o trabalho de campo talvez não fosse para mim."

Quando Ari fez 50 anos, decidiu vender a empresa de tecidos que fundou com um sócio e se aposentar, mesmo sem saber o que gostaria de fazer da vida. Foram meses de incertezas até que, numa festa, a amiga Tereza Bracher colocou um livro e suas mãos. Era 27 de março de 2011. "O livro falava de formas alternativas de praticar a doação; a autora é alemã, foi presidente do banco mundial para o terceiro setor por 20 anos." Ari fechou o livro e decidiu ir até a Alemanha conhecer de perto alguns dos projetos. "Vi muita coisa bacana envolvendo jovens, tecnologia e doações, e o Arredondar era um deles. O projeto me encantou porque parecia uma forma democrática de praticar a doação: muitas camadas sociais doando e a prática saindo das mãos de uma pequena elite."

CASO DO ACASO


De volta ao Brasil, encontrou um sócio (que prefere se manter oculto) e pediu indicações de alguém que pudesse gerenciar o Arredondar com ele. E então um dos conselheiros indicou Nina. "Pai, é a menina de quem eu falei, aquela que vai mudar o mundo", disse Felipe. Ari entendeu que estava no caminho certo. Numa sexta-feira à tarde, no final de junho de 2011, fez o telefonema que colocaria Nina e ele na mesma rota. "Longe da linha de frente, eu estava numa empresa que trabalhava com o setor de administração pública. Eu detestava o trabalho e decidi pedir demissão. No mesmo dia o telefone tocou", lembra dela.

E então os dois começaram a se reunir com escritórios de contabilidade, com escritórios especializados em tributação e em auditoria e com empresas de tecnologia para conseguir viabilizar o projeto. "Umas cem vezes já deu vontade de pular da janela", diz Ari, rindo. Isso porque são muitas as frentes que precisam funcionar encaixadas. Para começar, foi preciso adaptar um software que, instalado ao sistema da loja, permite tornar o arredondamento da conta absolutamente inserido à contabilidade da empresa. "Criamos um manual para o varejista não poder falar não para a gente. Todos os problemas dele estão resolvidos, e para não doar o varejista tem que dizer: 'Não quero doar'", diz Ari.

Na outra ponta está o selecionamento das ONGs que receberão o dinheiro arrecadado. A ideia é trabalhar com total transparência para que os doadores possam entrar no site e ver quanto foi arrecadado por cada varejista, para que ONGs o dinheiro está sendo repassado e o que as ONGs estão fazendo com ele. Hoje o Arredondar tem em sua lista de clientes empresas como o Pão de Açúcar, Havaianas, Giraffas e Spoleto. São quase 20 mil pessoas arredondando por dia, um total até aqui de quase 8 milhões de microdoadores e mais de R$1 milhão coletados. "Amigos me ligam e dizem: 'Ari, quando você vai voltar a trabalhar? Eles não entendem o que eu faço, muito menos porque eu faço, mas a verdade é que encontrei um novo caminho, ressignifiquei minha vida, e acordo muito feliz todos os dias."

O texto acima, foi escrito pela Milly Lacombe para a Revista TRIP de agosto #268.